Às seis da manhã de uma terça-feira, o terreno baldio na Rua 15 do Setor Campinas já está movimentado. Dona Neuza, 67 anos, rega os canteiros de couve e rúcula enquanto o neto de oito anos ajuda a colher tomates cereja. Do outro lado do muro de tijolos, separado apenas por uma cerca de arame, fica a Escola Estadual Professora Maria das Dores — destino de boa parte do que é colhido ali toda semana.

A Horta do Bairro nasceu em março de 2025, quando cinco famílias decidiram ocupar um lote abandonado há mais de uma década. O terreno, de propriedade de um espólio em inventário, acumulava lixo e servia de ponto de venda de drogas, segundo relatos de moradores. Hoje, os 800 metros quadrados abrigam 24 canteiros, uma composteira comunitária e um galpão de ferramentas construído com doações.

Da vizinhança para a merenda

A parceria com a escola começou de forma informal. A diretora, Cláudia Ferreira, passava pela horta numa manhã e parou para conversar com os voluntários. "Ela perguntou se a gente conseguia doar alface para a merenda. A gente disse que sim, e a partir daí virou rotina", conta Sebastião Lima, 45 anos, um dos fundadores do projeto.

Atualmente, a horta fornece entre 15 e 20 quilos de hortaliças por semana para a escola, que atende 380 alunos do ensino fundamental. O volume cobre cerca de 30% da demanda de verduras do cardápio semanal, segundo a nutricionista da unidade. O restante continua sendo comprado por licitação da prefeitura, mas a diretora Cláudia avalia que a qualidade das folhas colhidas no dia faz diferença no prato.

"As crianças comem mais salada quando sabem que veio do terreno ao lado. É outra relação com a comida."
— Cláudia Ferreira, diretora da Escola Estadual Professora Maria das Dores

Quem faz a horta funcionar

O projeto funciona com escala de voluntários: cada família participante se compromete com pelo menos duas manhãs por semana. Há mulheres aposentadas, estudantes universitários, um pedreiro desempregado e até um grupo de adolescentes que cumpre horas de serviço comunitário exigidas pela escola.

Neuza Souza, aposentada da limpeza urbana, é uma das mais antigas no grupo. "Antes eu passava o dia em casa vendo televisão. Agora tenho motivo para levantar cedo", diz. Ela coordena a composteira, que recebe restos orgânicos de dez famílias vizinhas e transforma em adubo em cerca de 45 dias.

Em abril, o coletivo recebeu doação de mudas e sementes de uma cooperativa agrícola de Senador Canedo, cidade vizinha. A parceria inclui visitas técnicas mensais de um agrônomo voluntário, que orienta sobre rotação de culturas e controle de pragas sem agrotóxicos.

Regularização e incertezas

Nem tudo está resolvido. O terreno ainda não tem regularização formal, e o grupo mantém contato com o advogado do espólio para negociar comodato. A prefeitura de Goiânia informou que estuda incluir o projeto no programa de hortas urbanas do município, mas ainda não há prazo para formalização.

Enquanto isso, os voluntários seguem limpando o terreno, plantando e colhendo. Sebastião Lima sonha em instalar um ponto de distribuição de excedentes para famílias em situação de vulnerabilidade do bairro. "A gente produz mais do que a escola precisa no verão. Jogar fora seria desperdício", argumenta.

Impacto além da alimentação

Para a pedagoga Ana Lúcia Martins, que pesquisa educação alimentar na Universidade Federal de Goiás, o projeto vai além da merenda. "Quando crianças visitam a horta e participam de oficinas de plantio, elas constroem relação com o alimento que a escola sozinha não consegue ensinar", explica.

A escola já realizou duas visitas guiadas com turmas do terceiro ano. Na última, em maio, os alunos plantaram sementes de manjericão em copinhos descartáveis e levaram para casa. A professora de ciências, Juliana Prado, pretende repetir a atividade todo semestre.

Replicação em outros bairros

A história da Horta do Bairro inspirou moradores do Setor Urias, a oito quilômetros de distância, que iniciaram reuniões para avaliar terreno semelhante. Sebastião foi convidado para compartilhar a experiência numa assembleia comunitária marcada para o dia 15 de junho.

"Não tem fórmula mágica", avisa. "Precisa de gente disposta a sujar a mão e de paciência para lidar com burocracia. Mas quando funciona, muda o bairro inteiro."