Na manhã de segunda-feira, Antônio Ferreira, 54 anos, encostou o relógio no vidro do ônibus pela terceira vez em vinte minutos. O trajeto entre Casa Forte e o centro de Recife, que costumava levar pouco mais de uma hora nos horários de pico, agora aparece no painel do aplicativo do Grande Recife com estimativa de 42 minutos. A diferença veio com a inauguração parcial do novo corredor de transporte, uma faixa exclusiva de 8,4 quilômetros que liga a zona norte à área central da capital pernambucana.
"Não é milagre, mas já dá para sentir", disse Ferreira, que trabalha como auxiliar administrativo no bairro do Derby e depende do coletivo há mais de duas décadas. "O que me preocupa é o que vai acontecer quando chover forte. A gente sabe como é a Avenida Norte nesses dias."
Como funciona o corredor
O projeto, anunciado em 2024 e executado em etapas, reserva uma faixa exclusiva para ônibus em trecho da Avenida Norte e da Avenida Conde da Boa Vista. Segundo a Companhia de Transportes do Grande Recife (CTG), cerca de 120 mil passageiros diários devem ser beneficiados quando a operação atingir capacidade plena, prevista para agosto deste ano.
As linhas que passam pelo corredor receberam prefixos identificadores e horários ajustados. A integração tarifária com o metrô permanece inalterada: o bilhete único de R$ 4,10 continua válido para baldeações entre ônibus e estações de metrô dentro do período de duas horas. A CTG informou que monitores eletrônicos serão instalados em todas as paradas do corredor até o final do mês.
"A infraestrutura melhorou, mas a parada da minha rua continua sem rampa. Para quem usa cadeira de rodas, o corredor rápido não significa nada se não dá para embarcar."
— Lúcia Menezes, professora aposentada, moradora do Encruzilhada
Reações no bairro
Nem todos compartilham o otimismo de Antônio. Em reunião comunitária realizada no último sábado no bairro do Encruzilhada, moradores listaram problemas que a obra ainda não resolveu: falta de cobertura em pelo menos seis pontos de embarque, ausência de sinalização tátil para pessoas com deficiência visual e intervalos irregulares entre os veículos nas primeiras horas de operação.
Lúcia Menezes, 61 anos, professora aposentada que usa cadeira de rodas, participou da reunião e relatou ter esperado mais de meia hora por um ônibus com plataforma acessível na parada da Rua Padre Carapuceiro. "A infraestrutura melhorou, mas a parada da minha rua continua sem rampa", afirmou.
Do outro lado da discussão, comerciantes da Avenida Conde da Boa Vista avaliam o impacto com cautela. Alguns relatam queda no fluxo de clientes que vinham de carro, já que uma faixa de estacionamento foi removida para abrir espaço ao corredor. A associação de lojistas do trecho pediu à prefeitura estudo sobre compensações e sinalização de desvios para veículos particulares.
O que dizem os especialistas
Para a urbanista Helena Carvalho, pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco, o corredor representa avanço real, mas insuficiente se não vier acompanhado de política de manutenção e fiscalização. "Recife tem histórico de obras de mobilidade que funcionam bem nos primeiros meses e se degradam por falta de investimento contínuo", observou em entrevista ao Em Foco Brasil.
Carvalho defende ainda a expansão do corredor para ligações com Jaboatão dos Guararapes e Olinda, cidades que concentram grande parte dos deslocamentos pendulares da região metropolitana. "Sem integração metropolitana de verdade, o corredor resolve um gargalo e cria outro na ponta", avaliou.
Próximos passos
A CTG programou audiência pública para o dia 20 de junho, quando apresentará dados preliminares de tempo médio de viagem e frequência das linhas. Moradores poderão registrar reclamações e sugestões pelo e-mail institucional da companhia ou presencialmente no evento.
Enquanto isso, passageiros como Antônio seguem testando o novo trajeto no dia a dia. "Se funcionar de verdade, muda a rotina de muita gente", disse. "Mas a gente já aprendeu a não comemorar antes da hora."