O cheiro de tinta spray misturava-se ao de churrasco na Praça do Ferreira quando, na noite de abertura, o grupo de teatro Beco do Sombra encenou uma peça sobre migração nordestina para uma plateia de cerca de trezentas pessoas. Não era o centro histórico de Fortaleza — era o bairro de Messejana, a mais de quinze quilômetros da Beira-Mar, sede habitual dos grandes eventos culturais da cidade.
A cena resume a proposta do Festival Ruas Vivas, que entre 3 e 13 de junho distribui programação por sete bairros da periferia cearense. A iniciativa, organizada por coletivos artísticos locais com apoio da Secretaria de Cultura do Estado, busca deslocar a oferta cultural para regiões onde cinemas, teatros e museus são escassos ou inacessíveis.
Programação fora do eixo
"A gente cansou de ir até a cultura. Queremos que ela venha até a gente", disse Júlia Nascimento, 32 anos, diretora do coletivo Beco do Sombra e uma das curadoras do festival. A programação inclui 42 atividades gratuitas: apresentações de dança, oficinas de grafite, saraus de poesia, projeções de cinema ao ar livre e rodas de capoeira.
Os bairros contemplados — Messejana, Conjunto Ceará, Barra do Ceará, Granja Portugal, Parangaba, Serrinha e Prefeito José Válter — foram escolhidos a partir de critérios de densidade populacional e ausência de equipamentos culturais permanentes. Em cada localidade, a programação foi montada em parceria com associações de moradores, que indicaram praças, terrenos baldios e centros comunitários como palcos.
Grafite como linguagem de bairro
Na Serrinha, o grafiteiro conhecido como Riso liderou oficina com adolescentes que nunca tinham segurado um spray. O resultado foi um mural de 12 metros na parede de um depósito abandonado, com figuras que retratam crianças brincando de pipa e mulheres vendendo tapioca. "A arte de rua aqui não é vandalismo. É identidade", afirmou Riso.
O mural gerou polêmica discreta: um vizinho reclamou da "bagunça visual" em reunião de condomínio, mas a maioria dos moradores presentes defendeu a obra. A associação de moradores solicitou à prefeitura que o trecho fosse incluído no roteiro de turismo local que a secretaria de cultura pretende lançar ainda este ano.
"Meus filhos nunca tinham visto um palco de verdade. Agora querem fazer teatro na escola."
— Fernanda Costa, moradora do Conjunto Ceará
Música e memória
No Conjunto Ceará, a noite de encerramento da primeira semana reuniu trio de forró, grupo de maracatu e DJ que mistura brega com eletrônico. Fernanda Costa, 38 anos, mãe de três filhos, levou a família inteira. "Meus filhos nunca tinham visto um palco de verdade. Agora querem fazer teatro na escola", contou.
O festival também reservou espaço para debates sobre financiamento da cultura periférica. Em mesa realizada no Barra do Ceará, produtores culturais discutiram a Lei Paulo Gustavo e os desafios de manter coletivos ativos após o fim de editais emergenciais da pandemia. Participaram representantes da secretaria estadual, que anunciou abertura de novo edital de R$ 2 milhões para projetos em territórios periféricos no segundo semestre.
Desafios logísticos
Nem tudo correu sem percalços. Em Granja Portugal, uma apresentação de dança foi interrompida por chuva forte no segundo dia. Organizadores remarcaram o espetáculo para o ginásio de uma escola estadual, mas parte do público já havia se dispersado. Falta de iluminação adequada em dois pontos de programação também foi apontada por moradores em formulário de avaliação disponibilizado pelo festival.
Júlia Nascimento reconhece as limitações. "É a primeira edição. A gente está aprendendo o que funciona em cada território", disse. A expectativa é que o Ruas Vivas se torne evento anual, com expansão para cidades do interior do Ceará a partir de 2027.
Um modelo para outras capitais?
Para o sociólogo Paulo Araújo, professor da Universidade Federal do Ceará, o festival inaugura modelo que outras capitais nordestinas poderiam replicar. "Descentralizar cultura não é apenas levar espetáculo pronto para a periferia. É construir com os moradores, respeitando a memória e a estética de cada lugar", avaliou.
Enquanto a programação segue até o dia 13, moradores de Messejana já perguntam o que acontecerá com o espaço depois do festival. A resposta, por enquanto, é incerta — mas a praça nunca esteve tão cheia nas noites de junho.